Resenha Só por hoje e para sempre (Renato Russo)

Se você é ou em algum momento da vida foi fã da banda Legião Urbana e sempre teve vontade de conhecer a pessoa real por trás do ícone Renato Russo (Renato Manfredini Júnior), aquele que escreveu canções que você escuta/escutou tendo quase certeza que de alguma forma ele entrou em contato com sua vida e as compôs se baseando em seus pensamentos e sentimentos, não perca seu tempo e corre atrás de ler o quanto antes esse diário de recuperação publicado pela Companhia das Letras. Não é propaganda, eu juro.

Everything But the Books
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Minhas expectativas estavam altas com a leitura de Só por hoje e para sempre, tão altas que tive que me preparar psicologicamente para só então ter coragem de começar a ler. Acontece que foi muito melhor do que eu imaginava! Na minha opinião, considero Legião Urbana a melhor banda nacional de todos os tempos, e custo a acreditar na possibilidade de algum dia surgir uma tão boa quanto. Quatro anos atrás me tornei fã, e sempre considerei injusto ter nascido um ano após a morte do Renato Russo. Por isso, faço qualquer coisa que me aproxime um pouco mais dessa banda que, apesar de ser a minha favorita, acabou antes mesmo que eu viesse ao mundo. Seja através da compra de uma camiseta, documentários que às vezes passam na TV, os dois filmes que fui assistir no cinema (Faroeste Caboclo e Somos Tão Jovens), o tributo com o holograma do Renato e também com o Wagner Moura no vocal (que assisti na TV, infelizmente); enfim, não deixo de fazer o que esta a meu alcance em nome da admiração que sinto pela banda. Além, é claro, de escutar com frequência todas as músicas que, em sua maioria, eu já sei de cor.

Foi inevitável para mim me encher de expectativas quando soube que seria lançado o livro do próprio Renato sobre seus 29 dias na clínica de reabilitação Vila Serena (inclusive fiz um post sobre isso aqui no blog). Eu estava esperando entrar em contato com algo pessoal e íntimo, e no final das contas foi realmente emocionante para mim ler relatos que mostram a pessoa cheia de defeitos e qualidades que o artista foi. Ele é verdadeiro em tudo o que escreve, expondo seus problemas pessoais a respeito de casos amorosos, sexualidade, família e todas as consequências que sofreu devido ao uso de álcool e drogas, coisa que fazia principalmente para fugir da realidade da sua vida e do mundo. Além de não medir esforços para encontrar sua paz interior em harmonia com o Poder Supremo – com o qual enfrentava um certo dilema – sabia muito bem reconhecer suas falhas e defeitos, sem com isso deixar de ser generoso consigo mesmo em relação às suas qualidades, as quais precisava desenvolver e fortalecer ainda mais. Com uma personalidade pessimista e depressiva, Renato chegou ao fundo do poço e precisou de muita força de vontade para não perder sua fé, esperança e a vontade de permanecer vivo para enfrentar seus problemas. Tudo isso após sofrer nas mãos da mídia e em uma época na qual a maioria de seus antigos amigos mostraram-se não serem tão amigos assim, o que para alguém carente como ele era muito difícil de aceitar e lidar.

Renato possuía certa resistência para acreditar plenamente na existência da divindade e da própria bondade do mundo e das pessoas. Conforme a desintoxicação de todas as substâncias químicas que usava, lembrou-se de diversos momentos nos quais agiu de maneira arrogante, egoísta e explosiva, e escreveu de maneira reflexiva sobre muitos desses momentos, os relacionando ao uso das drogas e tirando de tudo isso uma lição para sua vida. O diário é detalhado especialmente nas tarefas que Renato fazia na clínica seguindo os Doze Passos criados pelos fundadores dos Alcoólicos Anônimos, e com exceção dos últimos dias (nos quais Renato pouco escreveu) também revela muito sobre sua rotina e a convivência com os outros pacientes.

Apesar de a capa ser do tipo fosca que mancha com qualquer toque de dedos, a edição feita pela Companhia das Letras esta incrível e muito caprichada, se parecendo de verdade com um diário. Em diversos momentos temos a própria letra do Renato e até mesmo alguns desenhos. Além de recomendar a qualquer fã da banda como um material muito valioso para ler e possuir, o livro é ideal para pessoas que estejam passando por um momento de extrema dificuldade em suas vidas, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. Apesar disso, é triste saber que ele veio a falecer devido às complicações causadas pelo HIV e em uma fase de depressão profunda ainda poucos anos depois de ter saído da clínica e um mês após o lançamento do disco mais melancólico de toda a história da banda (A Tempestade, 20 de setembro de 1996), sem ter realizado seu sonho de trabalhar com cinema e encontrar alguém que o amasse de verdade, e tendo optado por não lutar contra a doença. Ele já tinha perdido a vontade de viver.

4 Comentários


  1. Quero muito ler esse livro! Já leu o Renato Russo – O Filho da Revolução? Creio que você iria gostar, tem muitas fotos, é maravilhoso!

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    1. Nunca li, mas tenho muita vontade! Obrigada por me lembrar dele, logo que eu puder voltar a comprar livros ele será um dos primeiros.

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  2. Obaaa Ju, ainda não tinha visto crítica deste livro!
    Nunca fui SUUUUUUPER fã de Legião ou do Renato Russo, mas admito que o cara era um poeta.
    De qualquer maneira, é sempre muito bom conhecer várias facetas de ícones como ele, ainda mais quando escritas por ele próprio! As dúvidas, questionamentos, convicções, tornam-no mais real ainda.
    Beijos, gostei muito da resenha! Me interessou!
    Nati

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    1. Oi Nati!
      Você é da opinião de que ler diversas resenhas sobre o mesmo livro antes da leitura tira um pouco a graça dele? Antes eu lia várias sobre o mesmo, mas estou parando um pouco com isso para ver se influencia.
      Enfim, que bom que gostou da resenha e se interessou! Eu gosto de biografias, mas as autobiografias são bem melhores, não tem nem comparação. Já leu a do Gabriel García Márquez (Viver para contar)? É sensacional, um dos melhores livros que já li! Essa é a segunda autobiografia que leio, mas é diferente por ser bem específica sobre determinado ponto da vida do Renato (apesar de estar interligado com a pessoa que ele foi e com várias coisas que ele passou, não é a mesma coisa que remontar ao início de tudo, por exemplo).
      Beijos!

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