Resenha Presos que Menstruam (Nana Queiroz)

No livro Presos que Menstruam, Nana Queiroz nos conta a respeito da realidade das mulheres presas no Brasil, através de relatos das visitas que a jornalista realizou em prisões femininas de todas as regiões do país. Mais um livro incrível que tive a oportunidade de ler devido ao clube do livro da minha cidade, e que especialmente nesse encontro, me surpreendeu com um exemplo vivo que não tinha lido o livro e mesmo assim relatou coisas extremamente parecidas com aquilo que Nana expõe a respeito de mais um dos problemas do nosso país – o sistema carcerário no que diz respeito às mulheres.

Saraiva
Saraiva

O livro é dividido em capítulos pequenos que focam em presas/prisões diferentes. O ponto que eu já gostaria de destacar e que particularmente não me agradou foi o fato de que, ao invés de um capítulo completo para cada mulher e sua história, Nana falava um pouco a respeito dela e só voltava a falar muitos capítulos a seguir. Uma vez que eu li o livro em PDF, era péssimo ficar voltando para lembrar quem era aquela detenta e qual sua história de vida, os motivos que a levaram a prisão e outros aspectos a respeito de sua realidade. Contudo, imagino que a jornalista separou os relatos dessa forma talvez para mostrar que não importa o crime cometido pela mulher, e sim a situação muitas vezes desumana que ela enfrenta na prisão. De todo modo, achei essa divisão bem confusa e tive que tentar não me importar com o fato de que eu já não sabia mais quem era quem em meio aos relatos.

Esse livro é polêmico, principalmente em um país onde muitas pessoas acreditam que “bandido bom é bandido morto”. Antes de pensar que ele foi escrito para defender detentas que, em sua maioria, cometeram um crime – lembrando que pessoas inocentes as vezes vão parar na prisão – é preciso pensar a respeito do que deveríamos esperar do sistema carcerário. A prisão não deveria servir apenas para punir; ela deveria também possuir atividades educacionais, trabalho, tratamento com psicólogo além de diversos outros recursos que talvez preparassem o detento para voltar a viver em sociedade de maneira correta e digna, e não apenas jogar no mundo alguém que vai voltar ao crime, talvez mais revoltado e determinado do que nunca a continuar vivendo dessa forma. É preciso admitir que alguns meses/anos na prisão no geral não tem mudado infratores no Brasil, portanto esta claro que, da maneira como o sistema carcerário funciona, ele tem falhado drasticamente em diminuir os índices de criminalidade.

Quando falamos a respeito das mulheres, a realidade desse sistema carcerário consegue chocar ainda mais. Higiene precária, ausência de tratamento pré-natal para as detentas grávidas e de serviço de saúde no geral, além de complicações no que diz respeito ao direito de receberem visita; esses são apenas alguns dos problemas que as mulheres enfrentam diariamente devido a uma falta de preparo e consideração para com suas necessidades naturais e sociais.

É importante ressaltar que, entre os anos de 2007 e 2012, dados do Ministério da Justiça mostraram que os delitos mais comuns cometidos pelas mulheres foram aqueles que poderiam funcionar como complemento de renda. Quando Nana nos conta a história de algumas dessas mulheres, conseguimos compreender mesmo que minimamente os motivos que as levaram a cometer esses crimes, o que faz com que aumente nossa empatia e indignação para com a realidade que elas enfrentam dentro e fora da prisão.

Uma das coisas que mais me levou à reflexão foi o fato de que, enquanto os detentos (homens) geralmente possuem esperando por eles do lado de fora da prisão uma casa e família, o que a mulher geralmente encontra ao sair é um total abandono. A maioria dos homens troca por outra a companheira que foi presa; além disso, aquelas que não possuem parentes que cuidem de seus filhos os perdem para abrigos e, sem casa e família, muitas acabam voltando à vida do crime. Algumas chegam a cometer crimes propositalmente apenas para voltarem para a prisão, onde pelo menos possuem o que comer.

Presos que Menstruam é leitura essencial para aqueles que gostam de entrar em contato com uma realidade muitas vezes pouco exposta pela mídia, e para todos aqueles que gostam de conhecer o outro lado da moeda antes de emitir uma opinião. Para os jornalistas/futuros jornalistas como eu, também se trata de um trabalho inspirador, daqueles que faz você ter vontade de pegar o caderninho e sair por aí entrevistando todos aqueles que não possuem suas histórias contadas na sociedade. É um livro denso mas de escrita suave, que só tem a acrescentar na vida daqueles que o leem.

2 Comentários


  1. Ótima resenha, bem interessante o tema do livro, infelizmente a realidade do nosso país e isso mesmo, com a corrupção como é, não vamos ver melhoras nos presídios tão cedo, até por que não temos escolas, hospitais e demais serviços necessários a toda população, que são colocados como prioridade a frente dos presídios. Uma das maneiras de mudar tudo isso é com a educação e a cultura, que muda as atitudes e caráter de uma nação. Parabéns pelo blog. continuei esta lindo, abraço.

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    1. Concordo com você, Jean! Fico muito feliz que você tenha gostado do blog e da resenha. Se tiver oportunidade, leia o livro, creio que vai gostar. Abraço!

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