Resenha Carrie, a Estranha (Stephen King)

Carrie (Carrieta) é fruto do deslize no voto de castidade de um casal extremamente fanático por suas crenças religiosas. O pai morre em um acidente no trabalho antes do nascimento da garota, o que só parece confirmar a Margaret White, sua mãe, que Deus cobra caro pelos pecados cometidos. A mulher cria sua filha na base da violência e ameaças de condenação, a trancando em um armário sempre que a garota fazia algo que julgava errado. Não poucas foram as vezes que Carrie ficou trancada no pequeno cômodo durante longos períodos, sem poder se alimentar e precisando fazer suas necessidades ali mesmo.

Margaret possui uma péssima fama na cidade, e desde pequena Carrie enfrenta os piores tipos de preconceito e gozação na escola por sua causa; além disso, os estranhos modos e a aparência da garota parecem não ajudar muito. Ela aprende a confeccionar suas próprias roupas, sempre compridas, possui o corpo coberto por espinhas, nunca participa de eventos sociais e desconhece assuntos que dizem respeito a puberdade e sexualidade. Mais estranho, contudo, é o fato de a garota demonstrar possuir desde pequena o poder da telecinese (capacidade de mover objetos com a força do pensamento). Os casos aconteciam principalmente em situações de tensão, como quando Margaret surta após ver a filha conversando com a vizinha que tomava sol de biquini no quintal dos fundos, e Carrie então ocasiona uma chuva de pedras que atinge unicamente sua casa. Naquela época, ela não tinha muita noção do que era capaz de fazer e se cansava quando esforçava demais sua mente, mas adquire um controle maior sobre seus poderes conforme cresce.

Livraria Cultura
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Com 16 anos, Carrie passa pelo pior trauma de sua vida (mesmo considerando tudo de ruim que já havia enfrentado até então). Enquanto tomava banho após uma aula de educação física, ela fica menstruada pela primeira vez na frente das outras garotas da turma, que gritam as piores ofensas para ela e a atingem com vários absorventes. Acontece que Carrie não fazia ideia do que estava acontecendo, e fica desesperada por confundir a menstruação com uma hemorragia. A professora aparece e a repreende antes de perceber sua inocência. Então, a ajuda a se limpar, explica a mudança pela qual seu corpo esta passando e consegue que a garota seja dispensada das aulas naquele dia. A mãe bate na filha pelo pecado que cometeu ao se tornar mulher (?) e a obriga a rezar diante do altar que ficava em um cubículo próximo ao armário do castigo, onde depois a trancou durante mais de seis horas.

A professora de educação física fica descontente com o comportamento das garotas para com Carrie e decide castigá-las. Sob sua rígida supervisão, elas precisam frequentar a detenção durante uma semana; as que faltassem teriam sua entrada barrada no baile de formatura, que aconteceria em pouco tempo. Chris Hargensen, uma garota mimada e filha de advogado, se recusa a cumprir a pena, é impedida de ir ao baile e decide se vingar de Carrie com a ajuda do namorado delinquente, Billy Nolan. Sue Snell, por outro lado, fica aparentemente arrependida pela maneira como agiu, e convence seu namorado, Tommy Ross, a levar Carrie como acompanhante na festa para que assim ela pudesse aproveitar ao menos um momento de sua vida como uma garota normal. Carrie aceita, apesar de sua natural suspeita, e confecciona um vestido vermelho para a grande noite. Margaret enlouquece diante da ideia da filha indo ao baile, mas não consegue impedi-la graças ao medo de seus poderes telecinéticos.

Carrie, a estranha, é o primeiro livro publicado do autor Stephen King, conhecido por suas histórias de ficção e horror fantástico. A narrativa é feita em terceira pessoa tempos após os acontecimentos, foca a perspectitva de diversas personagens e conta com entrevistas, relatos e estudos relacionados ao “Caso Carrie”. Fiquei surpresa ao iniciar a leitura acreditando que a história possuía um terror totalmente voltado à protagonista, pois descobri que o livro causa muito mais aflição psicológica do que qualquer outra coisa, e que ao invés de temer Carrie é possível sentir uma grande compaixão por ela. Além disso, creio que é difícil criar um personagem que cause mais asco ao leitor quanto Margaret White, e espero não ter pecado ao desejar que a filha fizesse algo para se vingar de uma vez por todas de sua mãe, além de todas as pessoas da escola, com destaque para Chris Hargensen e seu namorado imbecil.

No geral, meu único arrependimento foi ter lido o livro online ao invés de esperar pela oportunidade de ler o físico, pois creio que minha experiência foi negativamente afetada enquanto poderia ter sido muito mais emocionante. Minha vontade de assistir a adaptação cinematográfica mais recente, que conta com a atriz Chloë Grace Moretz no papel principal, somente aumentou após a leitura da obra. A história prende e choca o leitor, principalmente aqueles que desconhecem detalhes. O final não é nem um pouco decepcionante, mas é preciso avisar que certas cenas são pesadas, e que talvez seja melhor preparar a mente e o estômago caso você não esteja esperando por coisas desse tipo. No meu ponto de vista, o grande mérito de Stephen foi ter trabalhado de maneira notável a crueldade humana e até que ponto ela é capaz de chegar. Com maldade humana eu definitivamente não estou me referindo a Carrie, considerada pela própria mãe como filha do demônio. Pensando bem, nisso eu até concordo com a Margaret.

“Jesus me observa da parede,

O seu rosto fria pedra,

Se ele me ama

Como ela diz,

Por que estou tão infeliz?”

– Carrie, a Estranha (Stephen King)

9 Comentários


    1. Muito obrigada pela visita e também indicação na tag, Nayara! Responderei o quanto antes 🙂

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  1. Geeente, tadinha da Carrie! Não sabia de todos esses detalhes da infância dela…! Esses pais (essa mãe principalmente) são muito do mal!
    E esse povo babaca que não respeita nem a menstruação alheia?!?! Eu hein!
    ADOREI a sua resenha, eu nunca tinha tido vontade de ler King, mas fiquei muito curiosa agora!!!
    Beijooo!
    Nati

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    1. Também não fazia ideia de que a Carrie era assim, Nati! Jurava que era só mais uma dessas personagens de livros/filmes de terror que de repente são possuídas por algum demônio e se tornam irreconhecíveis.
      Eu tinha uma leve vontade, mas depois desse quero muito ler outros. Carrie foi o primeiro que o Stephen publicou, imagino que ele escreveu livros ainda melhores depois disso.
      Beijos!

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    1. Muito obrigada, Barbara!!! Fiquei muito feliz com seus comentários, de verdade. Pode deixar que também vou conferir detalhadamente o seu. Beijos!

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  2. Li Carrie no início da minha adolescência e o reli recentemente, cerca de dez anos depois. Lembro que na época tinha adorado o livro. Hoje percebo que deixei passar muita coisa na minha primeira leitura e que a obra é ainda melhor do que imaginava. Me comovi bastante com Carrie e senti um imenso ódio da mãe dela. Quando terminei a releitura fiquei imaginando se toda aquela catástrofe poderia ter sido evitada se Carrie tivesse sido educada e criada como uma garota normal. Claro, ela ainda teria poderes telecinéticos, mas talvez não sentisse necessidade de treiná-los e usá-los. Ao menos não da maneira e na proporção que foram utilizados.

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